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NO DIA 11 DE SETEMBRO CAIU OUTRA TORRE

por Galeria do Rock

Jim Carroll3

“Por dentro das mãos e pés machucados, fragmentos de ferimentos antigos (quase cicatrizados) como amêndoas negras em crostas, são resposta suficiente – os pregos atravessaram o homem e atingiram Deus.”

 

Gregory Corso 

 

 

 

Carroll: O Rimbaud da ponte do Brooklin

 

Dentre os filmes, que narram seringadas nas veias poéticas, “Diário de um adolescente”, ao lado de “Cristiane F.”, seguramente, é um dos mais interessantes, e também um dos mais bobinhos. Mas o papo não é sobre cinema. E, sim, sobre o personagem do filme “Diário de um Adolescente”, inspirado no livro publicado em 1978, “The Basketball Diaries”, escrito pelo poeta e músico Jim Carroll, que se serviu das letras e do punk rock para cair fora do universo tenebroso dos becos escuros de Manhattan.

 

Jim Carroll é americano, nasceu no dia 11 do mês do cachorro louco, na manjedoura de uma família católica de classe média baixa. Assim como um dos expoentes da geração beat, Jack Keroauc, Jim Carroll foi atleta. Bolsista, jogava basquete para a tradicional escola “Trinity”, localizada na ilha de Manhattan. Viciado em heroína, amante das seringas infectadas, Jim se prostituía para manter o vício do “brown suggar”- gíria “junkie“ para substância química extraída do ópio, imortalizada no título da música dos Rolling Stones.

 

 

Capa da primeira edição do livro “Diário de um adolescente”

 

 

Cabelos longos, lisos e loiros, rosto angelical, verdadeiro Rimbaud intoxicado, um dos melhores poetas da América. Com esta lisonja da “madrinha do punk”, Patti Smith, Jim é descrito pelo encanto, cultivado como papoula na terra das recordações da amiga e uma das suas “pegações”.

 

Com o reconhecimento pelos medalhões da vanguarda nova-iorquina, Jim ganha espaço nas revistas literárias locais e bota pra foder nos recitais do “St. Mark’s Poetry Project”. Por lá também circularam nos anos 60 os beatniks e, posteriormente, Patti Smith e Tom Waits. Trabalhou para Andy Warhol e chamou atenção de ninguém mais, ninguém menos que Allen Ginsberg. Ainda como estudante, em 1967, no auge da psicodelia, publicou o livro de poemas “Organics Trains”, pela editora Penny Press.

 

 

Jim e o judeu-beat-budista Allen Ginsberg

 

 

Ao longo das décadas seguintes, publicou cinco livros de poesia: “4 Ups and 1 Down”, “Living at the Movies”, “The Book of Nods”, “Fear of Dreaming”. Em 1998, “Void of Course – 1994-1997 Poems” surge pela editora Penguin Poets. O poema que inaugura a publicação, “8 fragmentos para Kurt Cobain”, soa como ode ao vocalista do Nirvana em que o proclama mártir de uma geração entediada. A prosa “The Basketball Diaries”, de 1978, lhe rendeu fama pelo filme “Diário de um adolescente”, citado no começo da matéria e gravado em 1996. Também publicou nos anos 80, os livros “Forced Entries: The Downtown Diaries”, e “The Petting Zoo”.

 

Seus livros não têm tradução para o português, portanto, não há circulação dos materais, nem interesse das editoras em traduzi-los. Até mesmo pela internet, são raros os textos de referência. A única fonte confiável de fragmentos das obras está no site do próprio autor: http://www.catholicboy.com.

 

 

Patti Smith e Jim Carroll

 

 

Incentivado por Patti Smith, no início da década de 80, funda a banda de punk-rock “Jim Carroll Band’”. O som é muito parecido com “Stooges” e “Richard Hell and the Vololoides”. “Catholic Boy”, primeiro e mais aclamado disco do grupo, funde longos solos de guitarra, com letras confessionais, de evidência memorialística.

 

 

 

Passados oito anos do apocalíptico 11 de Setembro, Jim Carroll falece em 2009, no mesmo dia do atentado, em decorrência de um ataque cardíaco, aos 60 anos. Trepou por dinheiro, se picou, dormiu em quartos de prédios abandonados, em cima de bueiros, escapou de tantas overdoses. No entanto, deixou o exemplo por não ter se rendido ao slogan do suicidas de pele bem tratada, “morra jovem, morra lindo”. Só Jesus não basta, a poesia salva.

 

 

3 poemas adaptados para o português, do livro “Organic Trains”:

 

 

 

2nd TRAIN (for Frank O’Hara)

 

Today at the Long Beach Station
every thing was amazingly white
and sand was stuck in my tennis sneakers
that seems to be the way things
are going lately I was forewarned
about the clocks falling on me
so all I felt was 8 colors as my
wrist watch flew into the sky’s cheek.
watches are very symbolic of security
they remind me of Frank O’Hara. Frank
O’Hara reminds me of many wonderful
things, as does the vanilla light
which is dripping from his January eyes.

 

 

O SEGUNDO TREM (PARA FRANK O´ HARA)

 

Hoje na estação Long Beach

espantosamente algo se revelou

e a areia grudou no meu tênis

isso parece ser o modo como as coisas

vão atualmente Eu estava atento

em relação às horas que avançavam

então tudo o que percebi eram 8 cores alteradas como o meu

relógio de pulso que lancei como um desaforo pro alto.

relógios são símbolos de aflição

eles me lembram Frank O´Hara. Frank

O´Hara me lembra incomparáveis milagres

tipo, um banal amanhecer

que úmido tropeça dos seus olhos de Janeiro.

 

 

 

3ed TRAIN (for THE SUMMERS)

 

A woman comes up to me
and questions the aesthetic
value of a red tee shirt
this was the same woman
who yesterday warned
me about clocks
I’m convinced she was a communist.

 

 

TERCEIRO TREM (PRA SUMMERS)

 

Uma solteirona veio até mim

e questionou o valor estético

da minha blusa vermelha

era a mesma mulher

que ontem me alertou

preocupada com o horário

Estou convencido que ela era comunista.

 

 

 

7th TRAIN (for POETRY)

 

Carmel candy into a glove

melt it on and fit my love

if the world is T.N.T.

at least my you is wearing me

 

 

SÉTIMO TREM (PARA A POESIA)

 

O melaço caiu como uma luva

comoveu meu bem-querer

supondo que a vida é uma bomba

pelo menos me usando está você

 

 

Texto por Diogo Mizael 

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