O SEU JEITO DIFERENTE DE PINTAR

Entrevista com TEC Fase, artista e grafiteiro argentino que ama a Galeria do Rock e São Paulo

Atualizada 16/06/2016 08:36

TEC Fase, o artista argentino que colore as ruas de diversas cidades com seus impressionantes grafites e presenteou a região central de São Paulo com um mural gigante, chegou na Galeria do Rock carregando sua bike dobrável, conversamos na entrada da 24 de maio e assim ficamos sabendo que o argentino que ama São Paulo e a escolheu para constituir sua família, começou sua história artística em Sampa com a Galeria do Rock.

Veio pela primeira vez para São Paulo em 2003 e por indicação de amigos de Buenos Aires foi conhecer a Galeria do Rock, o único local em Sampa com uma loja que vendia materiais de grafite, a Grapixo. Nela conheceu o fanzine em cores sobre pichação e ficou impressionado por nunca ter visto algo impresso sobre o assunto em nenhum outro local, guarda até hoje esse fanzine como recordação e se inspirou nele para criar um parecido em Buenos Aires. Desde então recomenda a visita à Galeria do Rock por ser um local único e especial, muitos dos seus amigos DJs vêm para São Paulo apenas para ir à Galeria comprar vinis. 

- A Galeria do Rock influenciou a sua história com São Paulo de qual forma?

Fui à Grapixo conhecer os produtos e em uma conversa com o dono da loja apresentei meus trabalhos e logo ele sugeriu que eu os apresentasse à Galeria Choque Cultural na Vila Madalena, pois o trabalho tinha a ver com o conceito do local, e como eu não conhecia nada em São Paulo, aceitei a indicação e até hoje tenho essa parceria com a Choque, posso dizer que a minha história começou em São Paulo após entrar nessa loja na Galeria do Rock.

- Qual foi sua impressão de São Paulo em termos estéticos?

Eu não acreditava que o ser humano era capaz de fazer uma cidade com tanto cimento. Desde o avião percebi a quantidade absurda de prédios, sem horizontes e muito cinza. 

- Como é a cena de arte de rua em Buenos Aires em comparação a São Paulo?

O grafite em Buenos Aires vem principalmente da classe média, é construtivo, tem muito estêncil sobre política, mas pouca pichação. A pichação em São Paulo está muito presente, é inigualável com qualquer outro lugar do mundo. É possível compreender a cidade por meio da pichação, ela é um grito, uma voz que não pode ser calada ou colocada embaixo do tapete. O grafite tem uma intenção artística, mas é completamente influenciado pelos códigos da pichação. O Brasil é um país maravilhoso, mas injusto. A rua fala, o picho é um simbolismo dessa questão, é um sintoma.

- Por que decidiu fazer um mural gigante no centro de São Paulo?

Moro na região do Minhocão, sou frequentador e acho surreal andar sobre o Minhocão e ver todas as empenas cegas. Fui pedir permissão em diversos prédios na Av. Nove de Julho e em toda a região central, mas ninguém permitiu, até que finalmente esse edifício me concedeu sua empena, porém, com um custo.

- Você procurou patrocínio?

Sim, mas começaram a vir as imposições, uns queriam ver a arte antes, outros queriam opinar, influir, impedir ou pedir o uso de algumas cores específicas e coisas desse tipo. Parei e pensei: Vou fazer o maior mural da minha vida e terei que fazer o que os outros querem? Será um desastre! Quer saber? Vou pagar para usar a empena do prédio, mas ninguém vai ver nada antes.

- Para um artista de rua é viável trabalhar com patrocinador?

Sim, pois alguns artistas sabem lidar com isso e outros não. Contudo, se toda a arte de rua fosse patrocinada, seria publicidade.

- As pessoas entenderam o fato de você vender o seu carro para custear a obra?

Eu achei interessante como isso passou a ser importante para a história do mural, para mim foi algo comum, eu precisava do dinheiro e vendi. Eu comecei a fazer o mural e os gastos foram surgindo, foi uma necessidade.

- Você já sabia o que ia pintar?

Primeiro escolho o local e o tema vem naturalmente quando o trabalho começa. Pintar uma tela é diferente de trabalhar na rua. Eu gosto do fato do artista de rua ser influenciado pela cidade. Eu pintava aquilo que via lá de cima, os carros, as vias, o barulho forte das ambulâncias paradas no trânsito na Avenida Amaral Gurgel. O mural foi inspirado na cidade e feito para o Minhocão. O desenho da múmia representa o fato do ser humano estar mumificado pela cidade, algumas pessoas se sentem ofendidas pelo desenho porque sabem que é uma realidade.

- Por que você ama São Paulo?

Amo São Paulo porque apesar de parecer uma cidade totalmente desumana, as pessoas conseguem amar, formar famílias, tem arte, música, trabalho e é possível ser feliz em uma cidade assim, se as pessoas conseguem viver dessa forma em uma cidade com um contexto tão difícil, significa que essas pessoas são muito fortes. É uma demonstração de que o ser humano pode amar, mesmo estando aqui. Sinto-me comprometido com a cidade por ser morador e criar aqui minha filha. A cidade é injusta, mas depende das pessoas.

- Pretende continuar morando em São Paulo? O que pensa do futuro da cidade?

Sinto-me à vontade em uma cidade com muitos desafios, onde eu possa oferecer a minha arte. A cidade precisa de pessoas com bons projetos e se cada pessoa entender que a cidade precisa ser inclusiva, com espaço para todos, teremos uma sociedade melhor. Tudo depende de cada um que mora aqui, não são os estrangeiros que vão salvar a gente, mas nós mesmos. Não tem como aplicar uma receita de um país europeu, precisamos conhecer melhor aqui para melhorarmos a cidade.

TEC ainda não conhecia a cobertura e o jardim da Galeria do Rock e adorou! 

O Tour Street Art + Galeria do Rock passa pelo mural do TEC e por outras obras incríveis de arte urbana do Centro de SP. Participem das experiências proporcionadas pelo Instituto Cultural Galeria do Rock no Centro de São Paulo com os Tours Oficiais da Galeria do Rock: www.facebook.com/galeriadorockwalkingtour.

Entrevista: Luana Pires Fernandes e Rivaldo Giancotti. Redação: Luana Pires Fernandes. Fotos: Rivaldo Giancotti.

 

O AUTOR

Luana Pires Fernandes

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